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Manejo de via aérea

Videolaringoscopia na Prática Clínica: Um Guia para diferentes perfis de pacientes

Ricardo Zanlorenzi· CRM-SC: 21593 RQE: 16.6336 min de leitura
Videolaringoscopia na Prática Clínica: Um Guia para diferentes perfis de pacientes

A videolaringoscopia é uma das mais importantes inovações no manejo da via aérea nas últimas décadas. Ao permitir a visualização indireta da glote por meio de uma câmera acoplada à lâmina, o videolaringoscópio (VL) transformou tanto a abordagem de intubações difíceis quanto o ensino de técnicas de laringoscopia. Este artigo apresenta uma síntese prática e atualizada das aplicações do VL nos mais variados perfis de pacientes, com base na experiência clínica e nos fundamentos técnicos de sua utilização

Antes de tudo, técnica básica!

A base do uso eficaz do VL reside na compreensão da sua lógica visual e na adaptação das manobras às características anatômicas de cada paciente. A técnica pode ser descrita em quatro etapas essenciais:

  1. Inserção do dispositivo com visão direta: o operador deve introduzir a lâmina observando diretamente a boca do paciente, garantindo que nenhum trauma ocorra.

  2. Obtenção da melhor visão da glote na tela: o posicionamento fino da lâmina pode exigir movimentos de retração e inclinação, buscando centralizar a glote no terço superior da tela.

  3. Introdução do tubo endotraqueal com visão direta até próximo à lâmina.

Atenção, aqui é o momento em que temos um “ponto cego” e possíveis lesões podem ocorrer.

Fonte:  https://doi.org/10.1002/ccr3.4864

  1. Intubação com visualização da tela, ajustando o eixo do tubo conforme necessário.

O uso de estilete rígido com curvatura semelhante à da lâmina do VL ou em taco de hockey a aproximadamente 60º é indispensável, especialmente nos modelos com angulação maior, ou seja, lâminas hiperanguladas.

Pediatria e Neonatologia

O VL é cada vez mais utilizado em pediatria, inclusive em neonatos. O espaço anatômico reduzido e a fragilidade das estruturas exigem precisão milimétrica. Lâminas adequadas ao peso, tamanho 0,1 e 2 devem ser escolhidas com cuidado. A introdução da lâmina deve ser feita em linha média e se for do tipo macintosh pode se beneficiar de um deslocamento da língua, assim como se faz na laringoscopia direta.

Manobras como o BURP (Backward, Upward, Rightward Pressure) são particularmente úteis para melhorar a visualização da glote. A intubação nasal também é viável e, em alguns casos, pode dispensar o uso de pinça de Magill se o tubo for adequadamente direcionado.

Além da intubação, o VL é útil para confirmar a posição do tubo, auxiliar em trocas e em procedimentos como inserção de sondas oro ou nasogástricas.

Obesidade severa: anatomia que desafia a lógica convencional

Pacientes com IMC elevado, pescoço curto e tórax proeminente representam um desafio para a intubação convencional. O VL se impõe como ferramenta de primeira escolha. Evidências mostram melhor visualização glótica com o VL, além de menor manipulação cervical.

A posição em rampa (com alinhamento do meato auditivo externo ao esterno) é essencial para maximizar a exposição laríngea. Em muitos casos, a intubação acordada com sedação leve (por exemplo, com dexmedetomidina) oferece segurança adicional.

Aqui estratégias além da videolaringoscopia e do posicionamento em rampa, como oxigenação apnéica trazem um benefício pronunciado à segurança do paciente.

As diferenças na posição, com a posição em rampa sendo recomendada para esse perfil de pacientes.

Neurocirurgia e Estabilidade Cervical

Pacientes com hipertensão intracraniana, aneurismas cerebrais ou instabilidade cervical impõe limites rigorosos à manipulação da via aérea. O VL permite intubações com mínima movimentação da coluna, sendo ideal nesses contextos.

Em casos como acromegalia, onde há macroglossia e hipertrofia de tecidos moles, o uso do VL associado a topicalização com lidocaína e intubação acordada é uma estratégia eficaz. A possibilidade de observar a glote sem necessidade de alinhar eixos anatômicos reduz o risco de alterações hemodinâmicas abruptas, também devido a menor pressão nas estruturas orofaríngeas.

Uma lâmina de laringoscópio em uma imagem de radiografia. Para uma laringoscopia direta haveria a necessidade de grande mobilização cervical e compressão de tecidos.

Intubação Nasal

A intubação nasotraqueal com VL oferece ao operador controle visual contínuo da trajetória do tubo. Uma vez que o tubo emerge na orofaringe, a manipulação final até a glote pode ser feita com Magill ou até sem ela, se o tubo seguir naturalmente a curvatura anatômica. Esse método é útil em cirurgias orais, trismo e pacientes com acesso oral limitado.

Ambientes fora do centro cirúrgico: UTI, Emergência e Transporte

O VL ampliou seu uso para fora da sala cirúrgica, sendo indispensável em emergências, UTIs e no ambiente pré-hospitalar. Sua curva de aprendizado reduzida permite que profissionais com menor volume de intubações tenham sucesso mesmo em contextos adversos. Além disso, a gravação de imagens ou sua transmissão em tempo real permite supervisão e ensino à distância — o que alguns já chamam de “telebation”, uma combinação de "tele” e “intubation”.

Cada vez mais estão surgindo estudos trazendo o quanto a videolaringoscopia aumenta a chance de sucesso na primeira passagem nas intubações, com isso sendo mais relevante ainda para os pacientes críticos, essa ferramenta está sendo cada vez mais utilizada nos setores que atendem pacientes deste perfil.

Ensino e simulação: Uma revolução

A grande revolução do VL talvez esteja na sua capacidade didática. Ao compartilhar a mesma visão entre instrutor e aluno, o aprendizado torna-se mais eficaz. A visualização das estruturas da via aérea em tempo real permite correções imediatas e discussão de técnicas com base em no que foi visto em casos ou em tempo real.

Uso de vídeos gravados por um videolaringoscópio em uma sessão clínica


A questão final… seu uso deve ser universal?

O videolaringoscópio não é apenas uma ferramenta de resgate, mas sim um instrumento fundamental que deve fazer parte do armamentário inicial de qualquer profissional que lide com via aérea. Seu domínio técnico, adaptado às realidades clínicas de cada paciente, oferece uma janela segura para intubações mais previsíveis, eficientes e didáticas. Dominar o VL é dominar o futuro da via aérea.

Agora, em relação ao uso universal da videolaringoscopia, devemos levar em consideração que nenhuma técnica de abordagem de via aérea resolve todos os nossos problemas. A ferramenta videolaringoscópio pode sim e deve ser utilizada universalmente, mas a sua utilização deve ser sempre intercalada com a laringoscopia direta (é possível com o mesmo dispositivo, utilizando a lâmina de macintosh).  Desta maneira mantemos nossas habilidades com diferentes técnicas, trazendo sempre o melhor a cada paciente.


pomodoro

Este artigo tem fins informativos e educativos, não substitui uma consulta médica. Consulte sempre um profissional de saúde para obter um diagnóstico e tratamento adequados.

Referências

  1. Oh MW, Yarmosh A, Francis D, Moon TS. Soft palate perforation from Glidescope® intubation: A case report. Clin Case Rep. 2021; 9:e04864
  2. Cooper RM, Pacey JA, Bishop MJ, McCluskey SA. Early clinical experience with a new videolaryngoscope (Glide­ Scope) in 728 patients. Can J Anaesth. 2005;52(2):191-198.
  3. Sun DA, Warriner CB, Parsons DG, Klein R, Umedaly HS, Moult M. The Glide­ Scope video laryngoscope: randomized clinical trial in 200 patients. Br J Anaesth. 2005;94(3):381-384

Perguntas frequentes

Sobre o autor

Ricardo Zanlorenzi
Ricardo Zanlorenzi

CRM-SC: 21593 RQE: 16.633

Desenvolvendo profissionais de saúde através do aprendizado | Aprendizado ativo | Educação médica | Médico anestesiologista e professor apaixonado pelo manejo de vias aéreas.

Conteúdo produzido e revisado pela equipe técnica da Celmat Produtos Hospitalares. Revisado por Celmat.

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