Abordagem Sistematizada da Laringoscopia Direta: da abertura da boca à inserção do tubo. Parte 1

A intubação orotraqueal é um procedimento fundamental na medicina de emergência e na anestesiologia, salvando vidas ao assegurar a permeabilidade das vias aéreas. A laringoscopia direta, embora seja a técnica mais comum para visualizar a glote, apresenta desafios que podem levar a tentativas falhas e complicações. Este artigo visa detalhar uma abordagem sistematizada da laringoscopia direta, incorporando as melhores práticas e evidências para otimizar a visualização laríngea e a passagem bem-sucedida do tubo traqueal, desde a preparação inicial até a inserção precisa do tubo com um estilete rígido (guia metálico) no formato "taco de hóquei".
Otimização do Posicionamento do Paciente: Além do “sniffing position”
O posicionamento adequado do paciente é o primeiro e mais crucial passo para uma laringoscopia bem-sucedida. Historicamente, a "posição de cheirar" (sniffing position) tem sido a referência, envolvendo uma leve elevação da cabeça e extensão atlanto-occipital. No entanto, o médico emergencista Richard Levitan conduziu algumas pesquisas em cadáveres que mostraram uma relevante melhora de exposição da glote ao fazer uma elevação adicional da cabeça, chamada de Head-Elevated Laryngoscopy Position - HELP, para melhorar a exposição laríngea.
A Ciência por Trás da HELP
No estudo de Levitan et al. , a laringoscopia foi realizada em cadáveres humanos, com o objetivo de quantificar o efeito do aumento da elevação da cabeça e da flexão do pescoço na qualidade da visualização laríngea. Os resultados foram significativos:
* As pontuações do POGO (Percentage of Glottic Opening), que medem a porcentagem da abertura glótica visível, melhoraram progressivamente com o aumento da elevação da cabeça.
* Na posição "cabeça plana", a média do POGO foi de 31% ± 10%.
* Na "posição intermediária", a média do POGO subiu para 64% ± 12%.
* Na "posição de elevação total da cabeça" (HELP), a média do POGO alcançou impressionantes 87% ± 13%.
● Essas melhorias foram estatisticamente significativas (P < 0,0001), demonstrando uma relação linear robusta entre a elevação da cabeça, o ângulo de laringoscopia (que aumentou de uma média de 32° para 67°) e a qualidade da visualização glótica.
Exposição laríngea convencional
Exposição laríngea fazendo uma elevação adicional da cabeça
Como Obter a Posição HELP
A posição HELP não é apenas sobre a elevação da cabeça, mas sobre otimizar o alinhamento dos eixos oral, faríngeo e laríngeo, aumentando o "ângulo de laringoscopia" e a distância da mandíbula para o operador. Para a maioria dos pacientes, essa posição pode ser alcançada elevando a cabeça até que as orelhas estejam no mesmo nível do esterno, em alguns essa melhora acontece com uma elevação adicional desta posição. No estudo, os autores descrevem que o laringoscopista pode elevar a cabeça do paciente com a própria mão direita no início do procedimento, embora precise liberá-la para a inserção do tubo.
Para pacientes obesos mórbidos, a elevação da cabeça e dos ombros requer um suporte adicional em rampa sob o paciente, como apresentado abaixo. Isso ajuda a reposicionar os tecidos moles da via aérea superior, afastando-os da linha de visão do laringoscopista.
O desafio do posicionamento em pacientes obesos
Abordagem Sistematizada da Laringoscopia: Abertura Bucal e Controle da Língua
Com o paciente posicionado adequadamente, a laringoscopia direta começa com a inserção da lâmina. A abertura bucal é facilitada ao se estender o pescoço e elevar a cabeça, mas a manipulação manual é frequentemente necessária.
Abertura Bucal: Utilize a técnica de "tesoura" com o polegar e o indicador da mão direita (ou esquerda, se for canhoto e usar a mão dominante para a lâmina) para abrir a boca do paciente, afastando os dentes superiores dos inferiores. Isso evita que os lábios sejam pinçados entre a lâmina do laringoscópio e os dentes.
Inserção da Lâmina: A lâmina do laringoscópio é inserida pelo lado direito da boca, varrendo a língua para a esquerda e para fora da linha de visão. É essencial que a língua seja completamente deslocada pela lâmina para que a epiglote e a glote possam ser visualizadas. Se a língua não for devidamente controlada, ela pode obscurecer a visão, tornando a intubação extremamente difícil ou impossível.
Abertura da boca com o movimento de pinça
O design da lâmina busca facilitar manobras em espaços restritos. Uma vez que a lâmina esteja no local correto (na valécula para lâminas curvas, ou diretamente sobre a epiglote para lâminas retas), a força é aplicada no eixo do cabo, elevando a mandíbula e expondo a laringe.
Laringoscopia Bimanual: Otimizando a Visão Laríngea
Mesmo com um posicionamento e técnica de controle da língua ideais, pode ocorrer a "visão apenas da epiglote" (epiglottis-only view), onde apenas a epiglote é visível, impedindo a visualização das cordas vocais. Nesses casos, a laringoscopia bimanual é uma manobra poderosa e subutilizada para otimizar a visualização.
Distinguindo a Laringoscopia Bimanual
É fundamental diferenciar a laringoscopia bimanual de outras manobras comuns:
* Não é compressão cricoide: A compressão cricoide (manobra de Sellick) é aplicada na cartilagem cricoide para ocluir o esôfago e prevenir regurgitação, não para melhorar a visão laríngea.
● Não é BURP: BURP (Backward-Upward-Rightward Pressure) é uma pressão assistida aplicada por um auxiliar para tentar melhorar a visão, mas muitas vezes de forma não controlada pelo operador principal.
A Técnica da Laringoscopia Bimanual
A laringoscopia bimanual é realizada pelo próprio operador, usando sua mão direita livre (já que a mão esquerda segura o laringoscópio). O objetivo é manipular externamente a laringe para melhorar a visão interna.
A técnica envolve:
Aplicação de pressão: Com a mão direita, alcance o pescoço do paciente e aplique pressão no sentido contrário à força que a lâmina do laringoscópio está exercendo na valécula. O ponto de aplicação mais comum é na cartilagem tireoide, embora a precisão exata não seja essencial, pois a manobra é autoajustável.
Ajuste contínuo: O operador conecta as manipulações de sua mão direita no pescoço com a observação imediata do efeito na visão laríngea. Isso permite ajustes finos na posição e na quantidade de força para otimizar a visualização. A analogia usada é a de uma chave em uma fechadura: a lâmina precisa estar totalmente avançada para "virar a fechadura" (ou seja, elevar a epiglote).
Lógica de funcionamento da manobra laríngea externa
2. Mecanismos de Ação e Papel do Auxiliar
A laringoscopia bimanual funciona por dois mecanismos principais:
* Melhora da mecânica: Avança a ponta da lâmina na valécula para uma posição ideal.
● Deslocamento posterior: Empurra a laringe posteriormente para a linha de visão do operador.
Em cerca de 10% dos casos, pode ser benéfico ter um auxiliar pronto para assumir e manter a pressão na posição otimizada, liberando a mão direita do operador para a inserção do tubo. Alguns clínicos iniciam com a mão do auxiliar, enquanto outros só envolvem o auxiliar se necessário, após a tentativa bimanual inicial.
Como dificilmente se está sozinho uma intubação o auxiliar tem papel fundamental nessa manobra
Mensagem para casa
A laringoscopia direta é uma habilidade que exige precisão e uma abordagem sistemática para tirar o melhor proveito desta técnica. A otimização do posicionamento do paciente com a técnica de elevação adicional da cabeça é o alicerce para uma visualização superior, como demonstrado pelo aumento significativo nas pontuações POGO. O controle meticuloso da língua e a aplicação estratégica da laringoscopia bimanual oferecem ferramentas poderosas para superar o desafio da visão subótima, assim com facilitar a passagem do tubo, que abordaremos na parte 2 desse artigo.

Este artigo tem fins informativos e educativos, não substitui uma consulta médica. Consulte sempre um profissional de saúde para obter um diagnóstico e tratamento adequados.
Referências
- LEVITAN, Richard M. et al. Head-Elevated Laryngoscopy Position: Improving Laryngeal Exposure During Laryngoscopy by Increasing Head Elevation. Annals of Emergency Medicine, v. 41, n. 3, p. 322-330, mar. 2003. DOI: 10.1067/mem.2003.87
Perguntas frequentes
Sobre o autor

CRM-SC: 21593 RQE: 16.633
Desenvolvendo profissionais de saúde através do aprendizado | Aprendizado ativo | Educação médica | Médico anestesiologista e professor apaixonado pelo manejo de vias aéreas.
Conteúdo produzido e revisado pela equipe técnica da Celmat Produtos Hospitalares. Revisado por Celmat.
Artigos relacionados

Abordagem Sistematizada da Laringoscopia Direta: da abertura da boca à inserção do tubo. Parte 2
O tubo passou pelas cordas mas travou nos anéis traqueais? Gire no sentido horário. Parte 2 do guia sistematizado da laringoscopia direta: o estilete em taco de hóquei, a técnica de inserção pelo canto direito da boca e o uso correto do bougie diante da visão apenas da epiglote.

Videolaringoscopia na Prática Clínica: Um Guia para diferentes perfis de pacientes
Do neonato ao paciente com obesidade severa, cada perfil exige um ajuste na técnica de videolaringoscopia. Um guia prático com as manobras indicadas em pediatria, neurocirurgia, intubação nasal e ambientes fora do centro cirúrgico — e por que a laringoscopia direta ainda deve ser praticada.

Entendendo a videolaringoscopia: muito mais que uma câmera e uma tela
"Eu vejo a glote, mas não consigo passar o tubo." A videolaringoscopia resolveu o problema da visualização e criou outro: o acesso traqueal. Entenda a teoria das duas curvas de Greenland, por que estiletes estáticos falham e o que muda com os introdutores dinâmicos.